5 perguntas para… Gabriel Filippo, do Tunnel Lab

By 16 de julho de 2015 5 perguntas, principal, rio de janeiro

Mudar o mundo pode parecer um desejo megalomaníaco impossível para alguns. De fato, se você pensar em erradicar a fome mundial, estabelecer a paz definitiva entre os povos ou qualquer coisa parecida com isso, eu diria que é, no mínimo, uma tarefa bastante trabalhosa. Mas, mudar o mundo não se resume a grandes e mirabolantes projetos, que podem nem se concretizar um dia. Mudar o mundo começa quando a gente muda UM mundo, o mundo que está ao nosso alcance. O Tunnel Lab já mudou o mundo de 67 jovens, de 14 a 19 anos, moradores de comunidades do Rio de Janeiro, ao ensiná-los a empreender e aplicar tecnologia para trazer soluções aos problemas que eles enfrentam diariamente onde vivem. A organização sem fins lucrativos foi criada pela jovem Julia Moura e hoje ela tem como sócios o Rafael Cordeiro e o Gabriel Filippo, que conversou com a gente sobre a missão do Tunnel e como eles trabalham para combater a miséria que existe na nossa vizinhança, a poucos quilômetros de distância do metro quadrado mais caro do Brasil.

O que é o Tunnel Lab? O Tunnel é uma organização sem fins lucrativos, totalmente voltada para a educação. A gente trabalha com empreendedorismo e tecnologia para jovens de comunidades do Rio de Janeiro. A ideia é que a partir do treinamento que a gente fornece para os jovens, eles utilizem ferramentas tecnológicas para resolver problemas reais, nos locais de moradia deles.

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Como o Tunnel funciona aqui no Rio? A gente conseguiu se estabelecer em determinados locais a partir de parcerias que a gente faz com ONGs que já existem. A maior parte dos alunos que a gente teve até hoje é da Rocinha e lá a gente tem uma parceria muito boa com o Instituto Reação, do Flávio Canto, que ajuda muito a gente. Também já tivemos alguns alunos do complexo de favelas de Santa Teresa, por causa de outras ONGs que trabalham por lá. Nós acabamos de fazer os nossos pilotos agora, rodamos o programa Acelera Favela e a gente está na luta pela escalabilidade. Nós somos só três sócios e, na verdade, a gente trabalhou com muito voluntários. Mas a ideia é ter replicadores remunerados. Por  isso, nós fizemos um esquema de ensino semi-presencial para a formação de tutores e esses tutores vão replicar o treinamento nas favelas. Cada tutor carregaria tudo o que a gente precisa nas oficinas de tecnologia em uma maleta, uma espécie de caixa de ferramentas que a gente chama de makerspace in a box. Você pode desenvolver as oficinas em qualquer lugar com esse material, não precisa de muitos recursos.

O que é o Acelera Favela? É um programa que acontece em duas fases e a grande ideia é que a gente desmistifique tecnologia e empreendedorismo. A gente fez um vídeo de diversos alunos e escutou eles falando que pensavam que empreendedorismo era coisa para ricos e tecnologia era Facebook e Twitter no celular. A primeira fase do Acelera Favela visa, justamente, desmistificar todos esses conteúdos, mostrar que tecnologia é uma coisa que está por trás de tudo o que a gente usa no dia-a-dia, de tudo o que a gente consome. E que empreendedorismo é um valor de vida, não só você criar uma empresa, tem a ver com capacidade de realizar e isso é um valor para a vida, na verdade. Ao final, tem um treinamento sobre empreendedorismo, tecnologia, design thinking e, ao final disso tudo, a gente lança um desafio no qual eles têm que criar soluções de negócios para problemas reais que eles têm nas suas comunidades. Nessa primeira fase, foram lançadas cinco ideias e nós selecionamos as duas melhores, que foram levadas para a segunda fase. Na segunda fase, nós viemos com o Favela Game e o Água Mais. Nós pegamos essas duas ideias e aprofundamos ao longo de mais dois meses, até o Demo Day, que foi realizado no dia 26 de junho, no Espaço Nave, na Estácio. Lá, eles apresentaram o modelo de negócio e foram coisas bem completas e profissionais.

(continuação) O Favela Game é uma empresa de produção de jogos para smartphone que retratam apenas a realidade cultural da favela. Eles identificaram que existe uma falta de representatividade cultural muito grande por parte das comunidades e identificaram que, em termos de jogos, o que tem de representação das favelas são coisas como jogos de tiro. Eles resolveram criar uma empresa que produza jogos que refletem a realidade cultural da favela e lançaram já o primeiro produto, em versão beta. É um jogo para Android, chamado Passinho Dance. É um jogo estilo Dance Battle, só que com a temática da batalha do passinho. Esse jogo, em uma semana de lançamento, teve mil downloads na Google Play. E o Água Mais é uma empresa de soluções para economia de água. Eles identificaram que por não existir rede de distribuição de água e esgoto na comunidade, muitas vezes, as pessoas gastam dinheiro com galões de água mineral e recorrem a poços artesianos que não são regulamentados e a água não é potável. O produto deles se chama Gota D’Água. É um captador de água da chuva, que tem o formato de um guarda-chuva invertido com uma espécie de funil na ponta para canalizar a água. Ele vai com uma cinta, com velcro, que é ajustável a qualquer diâmetro de recipiente. Gerou um buzz legal dentro da comunidade. Uma unidade ficou com a gente, outra elas venderam no Demo Day, uma ficou na casa de uma das alunas e a outra era a que eles tinham que vender. Em dois dias, eles venderam para uma loja de material de construção e utilidades domésticas.

O Tunnel acredita que qualquer um pode ser empreendedor social. O que sustenta essa afirmação? A ideia, como eu falei para você é: o empreendedorismo, de qualquer tipo, como ideia universal, é um valor que está além de empreender no sentido de criar uma empresa, tem a ver com capacidade de realização. Mas também é claro que isso depende das chances que você tem na vida. A ideia é que os meninos, tendo essa oportunidade, peguem e façam, que eles realizem. É um cenário tenebroso o que a gente trabalha no Rio de Janeiro. Foi o estado que menos diminuiu a miséria nos últimos anos, então, a gente tem pessoas vivendo em uma faixa de miséria muito grande.

Por que vocês escolheram o Rio? Primeiro, porque nascemos e crescemos aqui, isso já mostra a nossa ligação com nosso local. E a gente começou a reparar que quando a gente fala muito de miséria e de pobreza, as pessoas pensam logo em África. A gente fala que a África é um lugar tenebroso, que as pessoas vivem com menos de três dólares por dia, mas aqui no Rio isso acontece também. O bairro de Costa Barros, por exemplo, tem o menor IDH do estado do Rio. Você consegue chegar lá de metrô. Enquanto a gente tem Leblon, que é o metro quadrado mais caro do Brasil, a gente tem Costa Barros, também, dentro do Rio de Janeiro, e tem a Baixada. É um cenário tenebroso de miséria no Rio de Janeiro, embaixo do nosso nariz. Em vez de a gente pensar em soluções internacionalistas, por que não olhar pra cá? Isso tem muito a ver com o Tunnel. Lembra que eu te falei que a gente também trabalha com design thinking com os jovens? O grande barato do design thinking é você pensar em soluções de dentro para fora. Se a gente está aqui, vamos pensar em soluções para dentro da nossa casa para depois da gente olhar para fora. A pobreza é um problema mundial, em escala global, problema seriíssimo, mas a gente pode fazer alguma coisa por esse problema aqui. A gente vive aqui.

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