Indicações da semana #17

By 15 de agosto de 2015 cultura, indicações, principal

Quero começar esse post com uma confissão (estou ficando craque nisso, lembram?). E a confissão é que esse post aqui quase não saiu. Tive uma mini crise de falta de inspiração que, misturada com dias muito corridos, gerou com um drama na minha cabeça: o que colocar nas indicações da semana? Nessas horas de crise, nada melhor do que recorrer aos amigos. E foi a Vivi que me ajudou nessa! 🙂 A Vivi, aliás, é ótima para acabar com meus dramas. Em meia dúzia de mensagens trocadas no WhatsApp, ela já tinha a solução para a crise. ‘Você disse que está ouvindo o CD do Emicida direto, por que não faz um post maior só sobre ele?’. E assim fez-se a luz – e o post! Minha indicação da semana é o novo disco do rapper paulistano, ‘Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa’. E sim, ele merece um post só dele.

As músicas do CD ficaram disponíveis nas plataformas digitais na última semana e, desde então, vivem no meu repeat do Spotify. Antes do lançamento, o novo trabalho do Emicida começou a causar burburinho no mês passado, quando foi divulgado o clipe da canção Boa Esperança. A música faz uma dura crítica ao racismo e a desigualdade e injustiça sociais tão presentes na nossa sociedade. No vídeo, dirigido por Katia Lund e João Wainer, empregados, em sua maioria negros, tratados com descaso e desrespeito pelos patrões, começam uma revolta contra eles. Se você ainda não assistiu, vale dar o play e sentir o impacto:

É para incomodar, questionar, fazer pensar. No minidocumentário lançado há poucos dias com making of, cenas das discussões que contribuíram para a produção e depoimentos de mulheres reais que participam do clipe, ex-empregadas domésticas, e que já viveram as humilhações retratadas no vídeo, Emicida deixa bem claro o recado: é preciso discutir o modus operandis da escravidão e as relações de servidão que ainda existem no Brasil.

Se o vídeo e a letra de Boa Esperança são fortes, o que dizer da combinação de Trabalhadores do Brasil e Mandume? Trabalhadores do Brasil é um poema do escritor pernambucano Marcelino Freire, declamado por ele no disco. Nos versos, o autor coloca o dedo na ferida da injustiça social, apontando que é aos pobres e pretos que sobram os trabalhos tão consumidos e ao mesmo tempo tão marginalizados pela nossa sociedade, e manda o recado ‘ninguém aqui é escravo de ninguém’. Mandume, na sequência, escancara de vez a porta. É, para mim, a canção mais ‘sangue nos olhos’. Ela fala não só do racismo, mas de como a gente finge não ver que ele existe, de como tentamos minimizar gestos racistas, de como insistimos em acreditar que os efeitos da escravidão já se diluíram no Brasil, quando eles ainda continuam presentes na vida de uma grande parcela da população.

Mandume é pesada. Mas no CD, Emicida mostra que com leveza também é possível criticar. Basta ouvir Mãe, faixa que, cheia de poesia, abre o disco e, como disse o rapper em uma publicação no Facebook, é um convite a lavar a alma. Ou Passarinhos, escrita com a ajuda da filha de cinco anos, gravada com participação de Vanessa da Mata e que tem esse clipe que é uma lindeza só.

O disco tem ainda canções dançantes, como Mufete e Salve Black – Estilo Livre, que deixam bem claras as influências da viagem feita por Emicida à África enquanto compunha as canções do novo trabalho. A quem questionar a pegada para cima e pop de algumas faixas do CD, o rapper explica em entrevista ao Segundo Caderno d’O Globo: ‘Quando as pessoas veem o preto na favela, na miséria, na cadeia, teoricamente está tudo no lugar. E o disco vem nessa desconstrução. […] Minha intenção era descriminalizar o sorriso dos pretos’. Que descriminalize, desconstrua e faça refletir.

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