Destino: de onde veio Jorge

O lema da TurquiaYurtta sulh, cihanda sulh’, que significa ‘Paz em casa, paz no mundo’, pode ser sentido na pele por quem se aventura em um voo de balão na Capadócia, uma das regiões mais conhecidas do país em todo o mundo. A jornalista Patricia Royo afirma que a experiência é fascinante e inesquecível, assim como outras atividades que podem ser feitas na terra de São Jorge. Quem não tem medo de se entregar ao novo pode encontrar nas tradições turcas grandes e boas surpresas. Experimentar um prato criado no início do século XVI, quando o Brasil ainda era um país recém-nascido, é tão simples e prazeroso quanto se deleitar em um banho turco datado da mesma época. Quem é do tipo que gosta de desafios, deve correr para o Grande Bazar! Se você for tão persistente quanto nossa entrevistada de hoje, dá para arrematar roupas, tapetes e lamparinas por bem menos da metade do preço inicial. Papel e caneta na mão para não perder nenhuma dica!

Como você organizou a viagem? Minha grande referência foi o guia Lonely Planet, de Istambul, e me ajudou muito. Eu acabei montando um roteiro antes de viajar, com tudo o que eu ia fazer em todos os dias. Mas eu achei que eu poderia ter ficado mais uns dois dias em Istambul porque faltaram coisas da minha listinha que eu queria ter feito. Na Capadócia eu fiquei três dias. O cenário é bem repetitivo, cansa um pouco. Eu diria que o ideal são dois, três dias porque não tem muito o que fazer, pelo menos, em Goreme. Estava muito quente e eu não tinha disposição, por exemplo, para ir para a cidade vizinha. Então eu fiquei lá, vi o pôr-do-sol, fiz um tour com quadriciclo, dei um jeito, mas três dias são suficientes. Essa cidade em que eu fiquei é muito pequena, o Centro é muito pequeno e a paisagem não muda muito, são sempre as pedras. É lógico que se você for aventureiro e gostar de caminhada, você tem um prato cheio. Há vários vales, você pode ir para vários lugares diferentes. Eu matei essa coisa dos vales no passeio de quadriciclo. Você consegue ir mais longe e não precisa andar.

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Por que você escolheu a Turquia? Eu já consegui fazer duas grandes viagens pela Europa, uma em 2006 e outra em 2008, tinha visto muita coisa. Faltava um pouco mais do leste europeu e a Grécia, a Turquia, que eu não tinha conhecido. Eu estava vendo muita gente falando bem da Turquia. Para mim, era tipo ‘eu preciso ir para a Turquia’ e eu não estava com vontade de gastar dinheiro. Já ia para a casa de uma amiga, em Londres, mas ela ia estar se mudando na mesma semana em que eu ia viajar e eu não consegui mudar as minhas férias. Então, eu pensei em passar a semana anterior à mudança viajando e foi muito óbvio para mim a Turquia. Eu fiz caber porque eu queria há mais de um ano ir para lá.

Sultanahmet, com a Mesquita Azul por dentro | Foto: Patricia Royo

O que você fez em Istambul que você acha que um turista não pode deixar de fazer? Eu fiquei na parte antiga da cidade, no Centro Histórico, e se eu fosse voltar, ficaria lá de novo. Tem gente que prefere ficar do outro lado da ponte, na Praça Taksim, que é o lado mais moderno. Ficam os jovens, tem o burburinho das coisas novas, é a Istambul moderna. Mas eu curto mais a parte histórica. Ali, uma das coisas que você tem que fazer é ir à Aya Sofia. Era uma igreja, virou uma mesquita e agora é um museu. E é incrível por dentro. Logo em frente fica a Mesquita Azul. São as duas maiores referências, quando você fala em Istambul, de locais. Na mesquita você tem que entrar toda vestidinha, eles dão véu, dão pano para você cobrir o ombro, dão a saia, e é linda, linda, por dentro. Há outras várias mesquitas espalhadas pela cidade. Tem a Mesquita do Suleymaniye, que foi um dos maiores sultões; tem uma que é super escondidinha, que poucas pessoas vão, toda feita de azulejo, a Rustem Pasa. Não pode deixar de ir ao Grande Bazar, que é uma loucura.

Quando ele acontece? Sempre. Se eu não me engano ele abre às 9h e fecha à 19h. Lá tem tudo o que você quiser comprar. Você deseja ser rica para comprar tudo e ter uma mala sem limite de peso. Tem os panos, tem as lamparinas, tem tapete para caramba.

Temperos também? Tem um bazar só de temperos, que é o Bazar de Especiarias, e fica perto do porto. O Grande Bazar é mais comercial, de produtos, roupas. Tem uma seção só de roupa de couro, eu até comprei uma jaqueta lá.

E os preços são legais? A Turquia é conhecida por ser um lugar onde você tem que negociar. Então, por exemplo, essa jaqueta de couro que eu comprei, na etiqueta estava 3.500 liras. A lira, se eu não me engano, está 1,30 para o real. Ou seja, o cara queria me cobrar R$ 4.000,00 por uma jaqueta de couro. Eu falei: ‘Obviamente, não’. Só que na própria etiqueta já vem riscado para 1.700 liras. Eu pensei: ‘bom, vou negociar, não quero gastar dinheiro’. E comecei. Experimentei uma, experimentei outra, até que gostei de uma. Eu comecei a negociar e o vendedor a baixar o preço, mas eu enfiei na minha cabeça que só ia pagar 200 liras. Não sei de onde eu tirei esse valor, mas foi o que eu estipulei para mim: 200 liras. Ele falou: ‘Faço para você por mil, não, por 800, por 700’. E eu: ‘Não, Sadi, não vou comprar’. Eu já sabendo o nome do cara. Inventei que era estudante, que eles se compadecem de você, e disse que não tinha dinheiro. Ele: ‘500 liras’. Eu: ‘Não’. Ele: ‘Mas quanto você quer pagar?’. Eu falei: ‘Vou pagar 200 liras, é o máximo que eu pago’. Ele: ‘Mas 200 liras não dá’. E fez aquela cena, aquele drama. Ele ainda falou: ‘250’. Eu falei que só ia pagar 200. Ele: ‘Ah, tá bom, 200, 200’. Eu acabei pagando 200 liras depois de algum tempo de negociação e ele ainda apertou a manga e deixou do tamanho certo. Tem que barganhar! O que me disseram é que você tem que começar em 50% do valor que eles colocam. Não pode cair em nenhuma armadilha.

Comida na Capadócia | Foto: Patricia Royo

E a comida, como é? O grande atrativo é o Kebab. Eu experimentei lá, acho que não comi em um lugar legal, porque não gostei. Mas outro grande atrativo são as chamadas Meyhane. São tipo tabernas. Você chega e o cara está com 12 travessas na frente dele, com comidas diferentes e você monta o seu prato com cinco opções. São várias coisas diferentes. Você pode escolher ou o próprio cara escolhe para você. Eu achei melhor deixar ele escolher. Estava tudo ótimo. E eu sou ruim para comer. Das cinco coisas que ele colocou no prato, só uma eu não gostei, mas estava tudo maravilhoso. Vem muita coisa e eu paguei 11 liras nesse prato. Uma barganha. Em um restaurante eles cobravam 30 liras por um prato. Foi quase a melhor comida que eu comi em Istambul. É tipo comida local mesmo, que eles chamam. Não pode perder. Mas tem uma que foi imbatível.

Qual? O restaurante que eu tenho que recomendar é um que fica perto de uma das poucas igrejas que restaram lá, em Chora. Do lado da igreja tem um restaurante chamado Asitane, que é maravilhoso. É um restaurante que se propõe a recriar receitas do Império Otomano, receitas que estaria perdidas, receitas históricas. Eles têm coisas de 1870, 1500 e não sei quanto, de quando o Brasil estava sendo descoberto. É muito legal a proposta deles. É um pouco mais caro. Eu paguei 38 liras no meu prato, mas foi uma das melhores comidas que eu comi na minha vida. Comi uma codorna que foi cozida dentro de uma berinjela com um molho que tinha um mel. Maravilhoso. Eu fui comendo devagarzinho para ver se não acabava nunca.

E como foi na Capadócia? Foi muito bom também. O passeio de balão foi incrível, inesquecível. Se eu tiver que recomendar uma empresa, seria a Butterflies Ballons, que é uma das melhores, é segura, já tem uma boa reputação. Você acorda às 5h, eles passam no hotel às 5h20, você vai tomar café da manhã com todo mundo que vai voar e vocês são divididos em grupos de acordo com o seu balão. Eles definem o local da decolagem de acordo com o vento do dia. É uma cesta com 12 pessoas dentro. A cesta é dividida em quatro compartimentos com três pessoas em cada um e o piloto fica no meio. Quando começa a subir você pensa: ‘Meu Deus, que lindo!’. É muito tranquilo lá em cima. É uma paz misturada com fascínio porque você está em uma paisagem incrível. Dá medo também, teve uma hora que eu achei que fosse bater na pedra e ele ficava gritando: ‘Titanic, Titanic’. Ele não falava nada de inglês, mas tinha as frases prontas. Piadista total. Tinha a emoção de quase bater na pedra, e você sobe, vê o panorama. Naquele dia em que eu voei foram 105 balões voando. É incrível! Você vê todo mundo subindo, vê a sombra do seu balão na pedra, que foi uma das coisas que eu achei mais maneiras. É uma hora de voo, depois você pousa e tem champagne, bolo, a gente faz um brinde. Bebemos às 8h. Depois eles te levam para o seu hotel e são só 8h30. Você ainda tem o dia inteiro para começar. Eu super recomendo. Tem que fazer o voo de balão. É caro? É caro. São 165 euros se você pagar no cartão de crédito. Se você pagar em dinheiro, 150. Mas vale cada centavo. É uma experiência única. Só acontece ali. Não pode ir para lá e não fazer. Seria como vir ao Rio e não visitar o Pão de Açúcar. É batido, mas é um marco daquele lugar, você não pode não fazer.

Capadócia | Foto: Patricia Royo

Dá para se virar bem sabendo só inglês? Super dá. Todo mundo fala inglês, tem muito jovem, os caras que estão acostumados a lidar com turistas sabem não só inglês, mas algumas palavras em português. Muito brasileiro vai lá, todo mundo fala ‘obrigado’. Eles estão acostumados, falam duzentas línguas, e estão ‘adestrados’ para falar com os turistas. Pode ir só com o inglês, não tem problema nenhum e as pessoas são ótimas. Acho que é o maior patrimônio do país. As pessoas são demais, muito amigáveis. Sabe como as pessoas falam do Brasil, que os brasileiros são muito amigáveis? Acho que eu senti um pouco disso lá. Aqui a gente não sente porque está no meio da galera, mas eu senti isso lá, como é importante ter pessoas que te recebem bem. As pessoas foram muito solícitas. Se você pede ajuda, todo mundo te ajuda. Eu estou em um ônibus indo para um lugar que eu não sei o trajeto, mas eles dizem: ‘Vem comigo, eu vou com você, vou saltar lá’. As pessoas te ajudam. É fácil.

O que você acha que tem de negativo, que pode não ser muito legal na viagem? Olha, é uma boa pergunta porque eu não sei. Eu vou te dizer um ponto positivo, que eu acho que o Rio tem que fazer melhor. É tudo muito bem sinalizado em Istambul para o turista, em inglês. Você se encontra e vai andando, sabendo que está no caminho certo. Uma coisa que talvez seja negativa é que as pessoas são meio malandras. Tem que tomar mais cuidado na hora de negociar e não dar muita trela para os caras. Eles abordam muito as mulheres. Se você tem baixa autoestima, vá para Istambul! (risos) Você vai voltar se sentindo a mulher mais linda do mundo, eu voltei assim. Porque tudo com eles é ‘nossa, você é muito bonita’, ‘seu sorriso é lindo, vou te dar um desconto’. É bom tomar cuidado para não entrar nesses papos porque pode ser uma furada. Com relação à segurança, eu me senti tranquila, vi todo mundo andando com câmera no pescoço.

O país é legal para quem vai com amigos, para casais e para quem vai sozinho, como você? Do outro lado, no lado mais moderno, dizem que tem umas nights bem legais. Algumas nights são muito requisitadas porque ficam na beira do Bósforo, um estreito que corta o lado asiático do lado europeu. Tem até um passeio que você pode colocar na lista de coisas para fazer. É um passeio de balsa pelo Bósforo, que você vai vendo os dois lados. Ali há nights que dizem que são ótimas. Eu acabei não saindo à noite porque eu acordava super cedo, ficava até tarde na rua fazendo minhas coisas turísticas, e voltava 22h30, 23h. Eu tomava banho, conversava com o pessoal do meu quarto e ia dormir. Opção tem, eu só não sei quais são. (risos) Mas no próprio guia do Lonely Planet tem algumas dicas de coisas para fazer à noite. Uma coisa que eu gostei de fazer à noite foi ir ao banho turco.

Só tem à noite? Não, tem o dia inteiro. Mas fica aberto até meia-noite. Eu fiz o turismo todo durante o dia. No final do dia, quando eu estava exausta, cansada, querendo uma massagem, fui para o banho turco, fiz uma massagem e saí de lá às 22h30. Já saí de banhozinho tomado, naquela vibe de ir para o quarto e dormir.

Como é o banho? O banho turco é muito maneiro. Tenho que recomendar. A pessoa tem que fazer também. É tipo o balão na Capadócia. Dizem que o preço cobrado em Istambul é mais caro, mas tem um que eu recomendo, que é o mais antigo, construído pelo grande arquiteto que construiu várias mesquitas de lá, o Sinan. Ele é um marco porque construiu várias mesquitas e o nome dele está em quase todos os lugares. Esse banho turco que eu fui foi construído em 1500 e alguma coisa. É o Çemberlitas. Você entra e eles oferecem três opções: só o banho turco, só a massagem a óleo ou os dois combinados. Eu fiz o combo. O combo custou 117 liras. Só o banho turco era em torno de 70 liras e só a massagem era 50, 60. O ruim é que eles não te informam quase nada. A mulher fala: ‘Toma aqui’, e te entrega uma calcinha, uma toalha e diz: ‘Sobe e troca de roupa’. Você sobe, encontra o locker, pega uma chave e troca de roupa. Como eu já sabia e tinha lido a respeito, levei meu biquíni, um pente e um condicionador. O shampoo deles é meio ruim, então, eu já estava precavida. Pus meu biquíni e desci para um lugar como se fosse uma sauna, mas não tão quente. É um quente que relaxa, não é aquele quente que incomoda. Mas é como se fosse uma sauna redonda. No centro, há uma mesa grande de pedra quente. Você joga sua toalha ali e deita. Quando você chega já tem um monte de gente nessa pedra, pessoas que já tomaram ou vão tomar o banho. É divido entre homens e mulheres. As mulheres, sem sutiã e com calcinha.

De biquíni pode? Pode, mas eu acabei tirando o biquíni. A mulher começou a me dar banho e começou a enganchar a mão na parte de trás. Aí eu falei: ‘É mais fácil para você se eu tirar?’. Ela falou: ‘Yes’. Eu fui lá e tirei. Eu sou muito envergonhada, mas já tá todo mundo pelado, ninguém tá olhando para você. E tem corpo de tudo quanto é jeito, não é só mulher gostosa. Tem mulher com o peito no joelho, mulher de dois metros de altura com corcunda, não tem essa ditadura da beleza. O negócio é relaxar. Quando você deita na pedra, automaticamente começa a relaxar, dá uma sensação calorosa. Cinco, dez minutos depois a mulher te chama. Ela perguntou de onde eu era e já começou a dar o banho. Primeiro ela me molhou, depois começou a esfregar meu corpo inteiro com uma esponja vegetal. Depois veio a melhor parte. Eu já estava de olhos fechados e não sei de onde surgiu essa espuma, mas ela jogou uma espuma maravilhosa em mim. Eu não tenho a menor ideia se era uma espuma nojenta, mas ela parecia seda no corpo. A mulher joga espuma duas vezes, depois você levanta e ela lava o seu cabelo. É relativamente rápido. Tem gente que se frustra porque acha que vai demorar meia hora, mas são uns quinze minutos de banho. Depois eu fui para outro salão, peguei uma toalha quentinha. É uma massagem a óleo normal, mas maravilhosa. É uma noite perfeita. Depois eu tomei banho com o meu condicionador, o que, aliás, é uma excelente dica, coloquei minha roupa e fui comer no Mc Donald’s para fechar a noite da tradição. (risos) Até parece!

Çemberlitas | Foto: Patricia Royo

Viviane da Costa

Um comentário sobre “Destino: de onde veio Jorge

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