Dois livros, um tema e muitas reflexões

Conheci Michel Laub na internet e me apaixonei pelo texto dele publicado na Granta. Quando o livro ‘A maçã envenenada’ foi lançado, em agosto desse ano, tinha certeza de que ele deveria furar a fila de espera de livros ‘pendentes’, movida só pela minha curiosidade. Precisava conhecer com mais profundidade aquela literatura dividida em blocos, que tem mais coesão e poder de atratividade do que muitos parágrafos por aí.

Matthew Quick eu conheci ao ler quase de uma tacada só ‘O lado bom da vida’. O livro virou filme, nos cinemas, e texto, aqui no blog. Fiquei impressionada com o cuidado e a leveza do autor ao escrever sobre transtornos psiquiátricos que costumam estar cercados de muitos termos científicos e preconceito. Ele conseguiu contar uma história agradável sem empobrecer o tema, que é complexo, e assim foi mantido. Ao saber do lançamento de ‘Perdão, Leonard Peacock’, pensei que poderia deixar o livro para depois, já que estava familiarizada com a literatura de Quick. A ideia era investir em novidades.

Um dia, durante as férias, fui à Livraria da Travessa e vi as duas obras exibidas lado a lado. Com suas capas parecidas, predominantemente vermelhas, chamaram a minha atenção. Considerando as informações que tinha sobre cada um delas, não pensei duas vezes: comprei. Só depois de chegar em casa e ler com atenção as sinopses descobri que estava prestes a fazer uma imersão no suicídio, assunto principal dos dois livros. Talvez tivesse deixado os exemplares no balcão se soubesse disso antes, principalmente, por não querer ler sobre algo tão delicado e tocante em um período de relaxamento. Ainda bem que não o fiz.

livros com autores

À esquerda, acima, Michel Laub. À direita, abaixo, Matthew Quick.

‘A morte de alguém que foi tão importante na sua vida precisa de uma explicação menos gratuita.’, p. 19.

O título ‘A maçã envenenada’ é uma referência à canção ‘Drain you’, do Nirvana. Kurt Cobain, o vocalista suicida da banda, é quem puxa a série de lembranças do narrador sem nome, que revela uma fase marcante da juventude. O romance tem uma narrativa acelerada, com ritmo constante, bem marcado pela divisão do texto em blocos numerados.

Assim como em ‘Diário da queda’, primeiro da trilogia, Laub relaciona dois importantes acontecimentos da história à vida do personagem principal: o show do Nirvana no Morumbi e o genocídio em Ruanda. Um deles o faz reviver um período de inseguranças e dilemas, o outro faz parte do período em questão. O livro propõe, o tempo inteiro, reflexões sobre as ligações entre seres humanos, nossa capacidade de influenciar a vida do outro e as consequências que isso pode causar. O envolvimento emocional é inevitável.

Eu poderia trocar alguns detalhes dos parágrafos acima e utilizá-los, adaptados, para falar sobre ‘Perdão, Leonardo Peacock’. Com uma linguagem mais tradicional e simples – o texto é dividido em capítulos, como a maioria dos romances -, o livro também seduz emocionalmente o leitor e o leva a refletir sobre o convívio social e a forma como ele pode modificar vida de alguém. O acontecimento histórico que perpassa o livro é a Segunda Guerra Mundial, trazido à tona nas aulas de história do protagonista.

Leonard está completamento 18 anos e vai matar o ex-melhor amigo antes de se suicidar. O menino narra cada passo do seu dia, nos apresenta as pessoas que, de alguma forma, ainda importam para ele e tenta justificar o que está prestes a fazer. Quick inclui na história boa parte dos temas – ou seriam angústias? – comuns à adolescência e faz um livro de fácil identificação e difícil digestão. Muitas verdades inconvenientes são jogadas para o leitor que, certamente, vai rever momentos da própria adolescência pelos olhos de Leonard e refletir sobre eles. Caro leitor, esteja preparado para momentos de inocência e tensão.

‘Pense por si mesmo e faça o que é certo para você, mas permita que os outros  façam o mesmo.’, p. 93.

Sobre ‘A maçã envenenada’, uma consideração: a frase que abre o livro está entre as melhores primeiras frases de livro que eu já li na vida. Aqui vocês podem matar a curiosidade, descobrir qual é a tal frase e ler um pouco além de ‘A maçã envenenada’. Infelizmente, o link no site da Intrínseca para o primeiro capítulo de ‘Perdão, Leonard Peacock’ está corrompido. Nas livrarias, o livro custa, em média, R$ 29,00. É um investimento muito justo e válido, eu asseguro.

Viviane da Costa

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